quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sustentabilidade e economia solidária

Artigo publicado na revista ECOSOL - Economia solidária, comércio justo e desenvolvimento local - Edição nº1 - junho/2011
Nesse artigo proponho refletir sobre a economia solidária e a sustentabilidade econômica, tendo como referência a experiência no Complexo do Alemão e o desenvolvimento local deste território, à luz de um projeto de fortalecimento de pequenos negócios, desenvolvido no ano de 2010. Neste exercício, emerge a necessidade de repensarmos a ampliação e o fomento dos valores econômicos solidários num ambiente muitas vezes refratário por questões históricas ou de cultura econômica impositiva.
A economia desenvolvida nos espaços populares, favelas, periferias e outras denominações, onde prevalecem moradores de baixa renda, reflete a cultura econômica individualista e consumista da sociedade mais ampla. O individualismo, em detrimento ao cooperativismo, se consolida na ênfase do apoio ao empreendedorismo, sem reflexão ao que isso pode representar para a autonomia econômica nesses espaços. Os caminhos oferecidos aos que possuem espírito empreendedor são geralmente baseados na exploração da força do trabalho com acesso à formação técnica, de maneira simplista, o que fortalece o empreendimento restrito, mas não o contexto em que ele se insere, a dinâmica da vida local e a sustentabilidade econômica como forma de superação da pobreza.
Outro ponto de análise necessário para se pensar a sustentabilidade do desenvolvimento local sob o viés econômico é o da lógica do consumismo exacerbado. O que consumimos reflete o que precisamos consumir? Por que temos impulso para o consumo supérfluo? Várias teorias tentam dar conta desta questão, mas nos espaços populares se evidencia, principalmente, o papel da mídia publicitária e como se é visto, ou não visto, socialmente. Uma grande parcela da classe popular, sobretudo a juventude, valoriza em demasia o consumo de produtos que os faça sentir pertencentes a um mundo que não vivenciam de fato. Majoritariamente, estão fora de seu padrão de consumo, o que, no extremo, pode ocasionar a busca por recursos de forma ilícita, pois precisam ser vistos numa sociedade que, muitas vezes, os põe na invisibilidade social. Assim, cria-se uma cultura de pertencimento aos seus respectivos grupos de convivência pelo que se tem e, não, pelo que se é, ou pelo que se pode ser.
Neste cenário, como buscar a sustentabilidade econômica de forma solidária? Penso que se passa por um grande trabalho de convite à reflexão aos empreendedores locais. Entendendo o contexto anteriormente descrito, urge fomentar a importância na promoção dos valores cooperativos numa situação real, ainda que provisória, antecedendo a operacionalidade cooperativa clássica. Há um vácuo entre as ações empreendedoras de iniciativa individual e o acesso ao que esses empreendedores têm de informação da importância de uma economia solidária no desenvolvimento local sustentável. A supervalorização das técnicas de gestão - que são necessárias - focando quase que exclusivamente as formas de obtenção dos lucros, transforma a economia local numa operação tecnicista, distanciando o substancial humano que é inerente a ela, negligenciando-o. É um grande erro pensar que a natureza econômica do ser humano passa pela exploração de mão-de-obra e o acúmulo de capital. É essa cultura econômica, porém, que se apresenta consistente e é sistematicamente apresentada àqueles que possuem espírito empreendedor, principalmente nos espaços populares, potencializada pela escassez de recursos ou pela exploração histórica dessa parcela da sociedade, reproduzindo-a de forma irreflexiva.
Exemplifico esse raciocínio citando o projeto Adubando Raízes Locais, de fortalecimento ao empreendedorismo, desenvolvido pelo Instituto Raízes em Movimento, no território do Complexo do Alemão, com patrocínio da Petrobras. O primeiro foco pensado para o projeto foi o fortalecimento de iniciativas econômicas solidárias, promovendo a formação de uma rede local com trocas de serviços e produtos. Quando abrimos o processo de inscrição, após a realização de uma ampla comunicação nas 12 favelas que compõem o Complexo do Alemão, surpreendeu-nos a existência de poucas iniciativas com esse perfil. Assim, optamos por abrir para atender simplesmente pequenos negócios locais.  Entre as ações propostas, havia os encontros semanais para troca de experiências e, neste espaço semanal, surgiu um dos tópicos desta análise: não havia conhecimento sobre os princípios da economia solidária entre os atores econômicos locais. Mesmo sendo a maioria dos empreendimentos fortalecidos de cunho individual, houve grande assimilação dos valores cooperativos durante o processo. Conforme se sucediam os encontros mais se sentiam seguros do papel social que representavam ou podiam representar na coletividade em que estavam inseridos direta ou indiretamente. As trocas de experiências foram consideradas fundamentais para o amadurecimento das iniciativas econômicas locais. A discussão sobre gestão de pessoas recaía, constantemente, na importância do envolvimento delas no processo produtivo, bem como na necessidade de revermos seus papéis, em particular nas questões de divisão das responsabilidades e a conseqüente valorização do trabalho executado. Outro princípio da economia solidária, relativamente assimilado pelos empreendedores, foi o da troca de serviços e produtos. O grupo de profissionais de construção civil precisava de novas camisas que os identificasse e o ateliê de costura, de uma reforma para ampliar a produção. O serviço de uns foi trocado pelo produto de outros. Tivemos outras experiências exitosas nesse sentido, o que demonstra que precisamos fomentar os valores solidários para termos uma economia mais humana e sustentável.
Abro um parêntese para citar o atual contexto local no que concerne à economia do Complexo do Alemão, pois é fundamental a análise contextual para a proposição de um plano de desenvolvimento sustentável. Até o mês de novembro último, o Complexo do Alemão tinha a totalidade do território sob a influência do tráfico de drogas, que determinava a maioria das relações, inclusive as econômicas. Havia uma forte economia local que não era do tráfico, mas que girava em torno deste e possuía forte impacto na dinâmica econômica interna. Independente do juízo de valor que possamos fazer, é fato que existiam alguns consumos que giravam a economia local e se desenvolviam em paralelo ao tráfico de drogas, tais como lanches, bebidas, refeições, roupas, cabeleireiros, entre outros empreendimentos locais. Os valores que geravam, no primeiro momento, movimentavam a economia interna nas padarias, mercados e alguns serviços de primeira necessidade. Entender como se dava o desenvolvimento dessa dinâmica é fundamental para se pensar políticas públicas consistentes para a superação da lógica anterior, mas também da superação da pobreza de forma sustentável. Porém, o que se vê como incentivo de uma nova economia é simplesmente a abertura do acesso ao consumo, pois  houve considerável aumento do poder aquisitivo desta parcela da população na última década. As grandes empresas têm buscado apoios locais e governamentais, inclusive com subsídios, para atingir essa parcela de consumidores. Aparentemente, nenhum problema, uma vez que a população das favelas deve ter acesso aos produtos e serviços disponíveis noutros pontos da cidade. A grande questão é a inserção dos empreendimentos locais nesta nova formatação do desenvolvimento econômico dos espaços populares. Há de se discutir, planejar e implantar ações inclusivas dos empreendimentos locais nas cadeias produtivas, numa interação junto a essas empresas de maior porte e, não, a subjugação dos possuidores de espíritos empreendedores em mão-de-obra de maneira simplória, deteriorando ainda mais a economia endógena.
A SEDES – Secretaria de Desenvolvimento Econômico Solidário da Cidade do Rio de Janeiro, por meio do programa RIO ECOSOL, vem desenvolvendo ações no sentido de estruturar iniciativas coletivas no território que devem ser seguidas pelos outros órgãos governamentais. Isso é fundamental para o surgimento de uma economia sustentável e mais humanizada, com relações de trabalho mais equânimes. Somente com uma cultura da cooperação, que precisa ser fomentada pelo poder público, principalmente, mas não só, é possível alcançar o patamar de superação da pobreza. Essa superação só acontece com a participação ativa dos envolvidos na definição de seus destinos e, neste sentido, a atividade econômica deve extrapolá-la, alcançando outras dimensões das relações sociais.
Vale reafirmar a necessidade da divulgação da cultura cooperativa e solidária mesmo aos empreendedores individuais, pois estes podem, devem e querem promover mudanças substanciais nas relações de trabalho, substituindo-as por formas cooperativas. Durante o desenvolvimento do projeto Adubando Raízes Locais, o Instituto Raízes em Movimento fez uma parceria com o IBASE - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, que propôs a realização de um vídeo para pensarmos os fluxos relativos às atividades econômicas dos empreendedores apoiados pelo projeto. A iniciativa partia de dois workshops. Um com os universitários que desenvolvem assessorias aos empreendedores, e o outro aos próprios empreendedores. Estes realizaram, na sequência, filmagem com celulares, câmeras fotográficas e filmadoras,  para demonstrar, objetiva e subjetivamente, como refletiam seus fluxos econômicos, sociais e humanos, e como os empreendimentos influenciam a dinâmica da vida de todos os envolvidos. Essa atividade acendeu a discussão entre eles sobre diferentes aspectos do processo produtivo, como, por exemplo, o do grau de responsabilidade e interação entre as pessoas nele envolvidas. Segundo o IBASE: “O audiovisual será utilizado como instrumento provocativo nas oficinas regionais de formação”.  Como o Instituto Raízes em Movimento trabalha promovendo o capital social do território, também desenvolve ções que interagem ao econômico, tais como: pesquisas históricas e sociais, apoio à interação das ONGs locais por meio do CDLSM – Comitê de Desenvolvimento Local da Serra da Misericórdia, e fomento ao protagonismo dos estudantes de ensino médio da rede pública na região do Complexo do Alemão. Assim, promovemos a cultura solidária em 2010 e daremos prosseguimento no biênio 2011-2012, para apoiar a consolidação de iniciativas cooperativas que possam dar sustentação às transformações por que passa o território para uma economia sustentável.
Pensar uma economia sustentável pressupõe mapear os recursos disponíveis para o desenvolvimento de uma proposta desta natureza. No Complexo do Alemão existe uma Área de Proteção Ambiental e Recuperação Urbana – APARU, totalizando m 2.960.711,75 de metros quadrados. Destes, 74,88% constituem área urbana, atesta o IPP – Instituto Pereira Passos. Segundo a ONG Verdejar, nas áreas não urbanizadas pode-se desenvolver uma grande economia verde, como a agro-ecologia urbana, com hortas, manejo florestal, produção de adubos orgânicos e a construção de uma usina de reaproveitamento de materiais da construção civil. Além disso, a captação de água da chuva pode promover grande economia para a população local. Todas essas ações podem promover a neutralização da emissão de carbono. O turismo ecológico é uma forma consistente e sustentável de valorização dessa economia verde, onde os fluxos dessas produções devem fazer parte do roteiro, contribuindo para uma sociedade mais justa e economicamente viável.

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ALAN BRUM PINHEIRO é diretor-presidente do Instituto Raízes em Movimento e coordenador geral do projeto Adubando Raízes Locais com foco em desenvolvimento local, patrocinado pela Petrobras .   Idealizador de cursos de formação comunitária. Foi gerente do PAC Social do Complexo do Alemão, comunidade onde nasceu e trabalha como educador social.

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